#ZATANNA   —   she walks where shadows linger, with a melody in her soul a heart stitched with scars, a symphony of silence and fire, lost in the echoes of dreams and desire.     written by  cecelie  (they/them, 21+)   

SCENE I

  SCENE I.  As noites estavam se tornando longas demais para a mente suportar e silenciosas demais para que o corpo encontrasse descanso. Gotham adormecia do lado de fora da mansão como um animal de grande porte que apenas fingia dormir, e por mais que suas ruas mergulhassem na escuridão e o céu se cobrisse com aquele véu opaco e carregado de névoa e fumaça, dentro do quarto que Bruce havia lhe cedido com a típica generosidade contida de quem nunca soube lidar com o peso do afeto.Zatanna sentia-se cada vez menos como uma convidada e mais como uma sobrevivente. Tudo ao seu redor era confortável, pensado com precisão para acolhê-la: o colchão macio e envolvente, os travesseiros com densidade calculada, os lençóis lavados com lavanda suave — mas nada daquilo penetrava a barreira invisível que a separava do sono. Já eram três dias, ou talvez mais — ela já não confiava no tempo — em que deitava na esperança de um esquecimento breve, de um apagar leve e silencioso, e no entanto era tragada, todas as vezes, para o mesmo cenário, a mesma sensação, a mesma condenação que se repetia com a crueldade precisa de um ritual: a queda.E não se tratava de uma queda simbólica, como aquelas que tantos poetas, artistas e sonhadores se permitem imaginar nas noites de angústia e desassossego. Não era um tropeço emocional, nem uma metáfora conveniente para descrever alguma crise mal resolvida. Era real. Era física. Era uma queda total e ininterrupta, um ser inteiro sendo arrastado para baixo por uma força invisível e definitiva, como se o próprio universo tivesse decidido apagar sua presença da equação e devolver sua existência ao ponto zero.O chão sumia, as paredes desapareciam, o ar rareava. Não havia som, não havia luz, não havia onde se apoiar. Era um vácuo absoluto que a engolia com uma voracidade silenciosa, como se o espaço entre as estrelas tivesse se curvado em sua direção apenas para lembrá-la de que até a magia tem limites — e que, por mais poderosa que fosse, Zatanna era apenas mais uma criatura finita sendo devorada pelo nada. E ela caía. Caía com o corpo, com a mente, com a alma. Caía sem nunca tocar o fundo, como se o fim da queda fosse proibido.E, no entanto, a pior parte era o tempo: quando abria os olhos de volta no quarto da mansão, ainda trêmula, ainda com o coração disparado e a respiração entrecortada, o relógio sempre mostrava que haviam se passado apenas dez minutos. Dez. Como se o pesadelo zombasse dela com precisão matemática, como se dissesse: “Você ainda não viu nada.”Naquela noite, como em todas as outras, o padrão se repetiu. Não importava o quanto estivesse exausta. Não importava quantas camadas de proteção mágica ela tentasse lançar sobre si, quantos encantamentos de repouso, quantas velas acendesse ao redor da cama com runas arcanas para espantar o tormento. Nada funcionava. Nada sequer fazia cócegas na vastidão do vazio que a esperava. Assim que se rendeu ao sono, o mundo ao seu redor evaporou. O colchão desapareceu sob seu corpo como se nunca tivesse existido, a textura do lençol sumiu de sua pele, e a respiração falhou antes que pudesse ser controlada. Era como ser engolida por dentro — por um poço sem fundo que começava dentro dela mesma.O grito que nasceu em sua garganta nunca chegou a tomar forma; foi sufocado antes de alcançar o ar, como se o próprio som tivesse medo de se perder naquele espaço sem eco. O pânico não vinha aos poucos. Ele surgia de uma vez, como um veneno que já estivesse na corrente sanguínea. E como sempre, ela tentou as palavras mágicas. As únicas coisas que, durante toda sua vida, haviam lhe dado controle, estrutura, chão. Mas naquele lugar, naquele abismo sem nome, as palavras morriam antes mesmo de nascer. As sílabas se dissolviam, a gramática invertida da magia se desfazia na língua, como se a realidade, ali, tivesse deixado de falar sua língua.E então, quando tudo parecia repetir-se com exatidão, algo foi diferente. Um som, inesperado, rompeu o silêncio absoluto com a força de uma memória viva. Uma voz. Mas não qualquer voz. Era uma voz que fazia parte da arquitetura da sua alma. Aquela que ecoava nos corredores da infância, nos bastidores dos espetáculos, entre uma gargalhada e um truque bem-sucedido. E por mais impossível que fosse, ela reconheceu imediatamente.“Filha…”

  ...  O coração de Zatanna reagiu com violência, não com susto, mas com a força desordenada da saudade que há tempo demais não encontra abrigo. A garganta se fechou, e o nome saiu de seus lábios como um sopro antigo, como se nunca tivesse deixado de estar ali: “Pai?”Era uma pergunta e uma súplica. Era a negação da lógica e o desejo mais íntimo de acreditar. E ele, com a mesma expressão que tinha quando ela era pequena e errava algum número e chorava nos bastidores achando que havia fracassado, respondeu com aquela tranquilidade impenetrável que sempre o definiu. Disse que nunca estivera tão longe quanto ela imaginava. Que sempre estivera ali. E sua voz — aquela voz — era um abraço moldado em som, tão real que doía. Zatanna quis acreditar com cada célula, cada batida do coração, cada memória que guardava. Mas a mente, ferida, cansada, resistia. Ela havia visto seu corpo. Havia chorado no enterro. Havia sentido a ausência dele invadir os cômodos da casa, os espaços entre os livros, as cadeiras vazias, os palcos abandonados. Como aquilo poderia ser real?E ainda assim, ali estava ele. Dizendo que o que os olhos veem é o que existe. Que ela precisava confiar no que sentia, não no que temia. E as lágrimas vieram. Vieram como uma onda incontida, não de desespero, mas de um amor sufocado por tempo demais. Lágrimas de quem desejava que aquilo fosse real, mesmo que soubesse que não podia ser. Lágrimas de quem reencontra algo que já havia aceitado perder. E ele, vendo aquilo, apenas estendeu a mão, com o mesmo gesto de sempre, simples, firme, carinhoso. E disse que ela não precisava lutar contra aquilo. Que apenas confiasse. Que o deixasse entrar.E Zatanna, sem saber se sonhava ou se havia atravessado algum limiar desconhecido da realidade, ergueu a mão para tocar aquilo que o mundo acordado jamais lhe permitiu tocar outra vez.O toque não aconteceu de imediato. A distância entre as duas mãos — a dela, trêmula, estendida com hesitação, e a dele, firme e serena — parecia crescer à medida que ela tentava alcançá-lo. Não fisicamente, mas com algo mais profundo, mais íntimo, como se o abismo entre os dois não fosse o espaço, mas a própria dor.Zatanna sentia como se cada centímetro de aproximação exigisse o atravessar de anos inteiros de luto, camadas de culpa acumuladas como poeira sobre móveis antigos, como se ela precisasse primeiro perdoar a si mesma por tudo o que não dissera, por tudo o que não fez, por não ter sido capaz de salvá-lo. Ainda assim, ela avançou. E no instante em que seus dedos tocaram os dele — ou acreditaram tocar —, uma onda de calor subiu pelo seu braço com a intensidade de uma memória encarnada. Era como voltar para casa e descobrir que, apesar do tempo e das ausências, ainda havia um lugar à mesa esperando por ela.Mas não era conforto o que sentia. Pelo menos, não o conforto simples, redondo, que as histórias costumam prometer quando um reencontro acontece. O que sentia era vertigem, uma mistura dilacerante de alívio e medo, como se a linha entre o real e o ilusório tivesse sido riscada com água e, agora, escorresse por entre os dedos. A presença de seu pai era tão vívida, tão concreta, que doía de formas que ela não sabia nomear. Cada palavra dele era um lembrete da perda. Cada gesto, uma saudade se fazendo carne. E no fundo, uma parte dela — a parte que ainda precisava do chão para seguir vivendo — começava a desconfiar do encanto.
Algo ali sussurrava que aquela aparição perfeita demais, doce demais, compreensiva demais, poderia ser uma armadilha tecida com tudo o que ela mais desejava. E isso a aterrorizava. Porque se fosse real, ela não queria perder de novo. Mas se fosse mentira… não sabia se teria forças para acordar.
E então, sem aviso, sem um sinal claro, a figura começou a se dissolver. Não como um desaparecimento brusco, mas como uma neblina que se desfaz ao sol da manhã, lenta e inevitável. A mão que ainda segurava a dela se desfez, e o calor se transformou em um frio surdo que se espalhou por seus membros. O vazio que a cercava voltou a preencher o espaço, arrastando-a de volta para a realidade com a força suave e dolorosa de um despertar. Os olhos de Zatanna se abriram lentamente, e o teto do quarto de Bruce Wayne foi a primeira coisa que viu — opaco, familiar, indiferente. A respiração vinha pesada, os batimentos acelerados, e mesmo enquanto o peso do sonho desaparecia, a sensação de que ele ainda estava ali, em algum lugar entre o sonho e a vigília, permanecia. Ela estava acordada, sim, mas ainda carregava no peito o eco do toque que poderia ter sido, a dúvida que nunca a deixaria tranquila e, mais do que tudo, a certeza pungente de que algumas ausências são tão grandes que mesmo o sonho não as preenche por completo.

SCENE II.

SCENE III.

SCENE IV.